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Não Somos Daqui

Razões Para a Tristeza do Pensamento

Junho 20, 2020

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Salvador Dali, Buried woman with shadow

Em Junho deixo uma lista tendo em conta um outro livro de George Steiner, que li em Janeiro deste ano. "Dez Razões (Possíveis) Para a Tristeza do Pensamento" dá-nos a perspectiva sumária de que existe uma tristeza nuclear e necessária da qual não conseguimos escapar. Nesta tristeza assentará a nossa cognição e consciência, visão em que o pensar será ato de uma melancolia perene. O apelo pelo absoluto, que já referenciei aqui, também estabelece-se nas reminiscências deste pensamento necessariamente melancólico, imbuído no surgimento do ser. George Steiner dá-nos 10 razões para a tristeza do pensamento, e para cada uma delas além de resumir a ideia, 'chutarei' um livro:

1 -  O pensamento tem um centro inviolável, ouvi-lo é ouvir a dúvida e frustração;

A Confissão de Lúcio, Mário de Sá-Carneiro: Talvez uma das maiores obras da literatura portuguesa e, quanto a mim, não devidamente valorizada. Labiríntica é a confissão de Lúcio que remete o leitor a um percurso até ao âmago do ser. O suicídio e o anormal chegam numa narrativa em que a loucura é estabelecida como hipótese nunca adulterando a verdade. Este centro nuclear de Lúcio é dúbio, frustrado, porque ele ouve-se.

2 - O pensamento vulgar é uma empresa confusa e amadora, a causa da melancolia indestrutível;

Madame Bovary, Gustave Flaubert:  É tido como o primeiro dos romances realistas. Bovary é uma mulher vítima da sua própria empresa. Deu origem ao conceito de bovarismo, a insatisfação crónica, o suceder de situações não reflectidas, a confusão. A vulgaridade, o fim a que pode levar. 

3 - Pensar é dos actos mais comuns, repetitivos e gastos, razões para uma tristeza inseparável;

Todo o Mundo, Philip Roth: O homem de Philip Roth está tudo menos morto, e pensar é um acto fulcral no seu tecer narrativo. O que foi a sua vida, o ser adorado e desprezado pelos diferentes filhos, invejoso do próprio irmão, acaba por concluir que é o que não quis. Na recta final ainda a pensa, logo sofre. Percebe-se melhor no título original "Everyman".

4 - A língua aspira à autonomia e por outro lado à procura interior da verdade;

Não é Meia Noite Quem Quer, António Lobo Antunes: Um dos meus livros favoritos do António. Entre personagens sem nomes uma mulher regressa à casa onde cresceu. Num repente toda a vida está de novo lá, na casa agora abandonada, e quando a vida acontece morrer torna-se acessório. O uso da língua além de qualquer redoma, e de magistral que é,  torna-se encantatório neste romance. Trata do apelo permanente a entendermos aquilo que as palavras não podem traduzir. Ata titi ata a tia atou

5 - A inabilidade de condensar o nosso ser mental, uma actividade inútil;

O Idiota,  Fiódor Dostoiévski: O Príncipe Míchkin ainda hoje prevalece como uma imagem moderna da ética cristã. Quanto a mim vai além disso, Míchkin não se consegue condensar. A existência de cada um limita-se a ser e portanto ilimitada em si. Abnegação, bondade, não vale a pena tentar atar as pontas soltas do que somos. Um dos meus livros favoritos e pelo seu final talvez se entenda melhor o porquê de estar aqui. Há camadas e nem todos os leitores as observam neste livro.

6 - Ter esperança além de tudo, o flagelo do pensamento sobre a consequência dos actos;

Todos os Nomes, José Saramago: O Sr. José, escriturário no cartório de registo civil, está entediado e em busca de distracção. Colecciona então recortes de pessoas famosas, chegando à conclusão que estes recortes de famosos são todos iguais. Começa a prestar atenção nas pessoas desconhecidas, e sem querer inicia uma aventura sem fim na procura do outro. Porque somos mais do que um papel, e mesmo no infortúnio a resposta talvez seja apenas procurar. Acho que é o romance de Saramago menos óbvio, seja pela inclusão de vários mitos, pela subtileza do enunciar e dizer sem se dizer, Saramago nem sempre o foi capaz de fazer. Sendo este o mais próximo de um livro total, de Tempo e Espaço, onde há esperança além de tudo. Ler e entender.

7 - O pensamento esconde tanto ou mais do que revela;

A Consciência de Zeno, Italo Svevo: Zeno Cosini cria um diário como instrumento de apoio à sua terapia, faz psicanálise para parar de fumar. Neste diário iremos ler as suas mentiras e desvios, tornando-se esta leitura dolorosa pelo sofrimento da personagem, o que esconde por trás do que revela. Uma vida dupla contaminada pela inacção, um ser que parecendo implacável é na verdade só, com inúmeros sonhos, fantasias, e uma ânsia de felicidade impossível. 

8 - O interior de outro ser humano é inacessível, a qualquer luz ou amor;

O Estrangeiro, Albert Camus: A mãe de Mersault morreu, e quando este regressa do funeral a personagem principal comete homicídio, vítima do que diz ser um golpe de Sol. O absurdo do destino de Mersault instiga várias questões existenciais, contudo a personagem é sempre inacessível ao leitor, estrangeiro como o próprio título, não há como o justificar. Mersault é hermético e por isso gerador de pensamento que promove angústia em relação a si. 

9 - Para o génio não existe democracia, só injustiça e fardo;

Em Busca do Tempo Perdido, Marcel Proust: Pelo pensamento Marcel Proust quis fugir ao Tempo, elaborando uma das maiores obras literárias de todos os tempos. Talvez o livro que escolho a ter um só favorito a escolher. Esta busca é realizada no consciente e inconsciente da mente, produto de um génio que não se viu atado e trabalhou de forma obstinada. Conhecer "Em Busca do Tempo Perdido" é além de vida, abraçar o génio de Proust, o fardo de uma obra-prima.

10 - O pensamento torna o Homem estranho em relação a si e ao mundo;

Stranger in a Strange Land, Robert Heinlein: Valentine Michael Smith é tido como um ser humano superior nascido em Marte, sendo os seus pais parte dos primeiros colonos do planeta. Smith visitará a Terra e as suas peculiaridades de Super Homem, ou de homem que nasceu em Marte, acarretam uma série de inadaptações enquanto estranho na Terra. Uma mensagem de amor atada a Smith, visto como uma reinterpretação de Promoteu ou a materialização humana do arcanjo Miguel. Mais uma constatação de que não somos daqui.

Relação do que se Faz ou Sucede #2

Junho 18, 2020

Mais de um mês ausente e eis que me lembro de que agora, e ainda, tenho um blog. Ando a portar-me mal. Neste período li "Moby Dick", "Sinais de Fogo" do Jorde de Sena e já vou lançado na segunda metade de "Guerra e Paz". Nada falei destas leituras e gostava, principalmente de Moby, um livro que acho tremendo e me levou a querer ler tudo do Mellville. Entretanto já comprei a short fiction completa. Além de naturalmente me esquecer do blog, o regresso ao laboratório, orientar um estágio e escrever um artigo de revisão sobre glutamina sintetase ajudam a que das poucas vezes que me lembrava de aqui vir acabar por esquecê-lo. Com o isolamento social retomei a minha rotina de treinos que tenho tentado manter e entre tudo o que tenho em mãos cá estou. A ver se reservo tempo para ainda escrever coisas que gostava, tempo suficiente para que nada do que possa dizer seja precipitado ou menos elaborado do que pretendo. Deixo isso para a relação do que se sucede.

Memorial

Abril 28, 2020

Mal raiava o sol na rua ainda deserta, pela janela satisfazia-me a possibilidade de plenitude. Eram os tempos sem tempo, a luz ampla no ar húmido limpo puro, e eu menino tão sabedor que isso de se ser crescido nada me iria ensinar sobre isto de se estar vivo.

Não sei entretanto onde me perdi. Porque deixo horas abertas daquele que é o meu tempo a outros que se usam desse tempo. E eu, aqui, árvore em flor à espera nos frutos que não chegam. E eu aqui, com toda a força de viver contida à força de desbravar caminho invisível. E eu aqui árvore em flor com toda a força de viver contida nos frutos que não chegam à força de desbravar caminho invisível.

A rua era pisada com a vilar vermelha a meu lado, ainda a aprender a ser bípede de duas rodas seguia na imensidão do asfalto vazio que hoje só carros. Eram os anos da promessa para as gentes, estes os noventa do século vinte. Portugal a envelhecer qual país desenvolvido, reduzindo o desemprego, todos os marinheiros com casa, começando a saber escrever as suas canções e a caminhar rumo à academia. Era sim eu menino a pedalar a sorrir e Portugal a acreditar a sorrir comigo. A minha questão era o âmago das coisas, onde estava, sabendo sempre que a verdade da vida aí. E a querer responder, cresci.

Agora menos bípede, não tão sabedor, raramente encontro esse espaço, essa luz, esse sorrriso. Se sou eu, se é Portugal

E eu, aqui, ainda a querer responder. E eu aqui, pela janela a rua ainda deserta. No caminho a árvore a flor. Acho que um fruto.

Relação do que se Faz ou Sucede #1

Abril 25, 2020

aquilegia vulgaris.jpg

Esta nova disponibilidade para as minhas plantas é algo de bom que nasce no isolamento. Não vejo necessariamente mais filmes, não leio mais. Acho que cuido mais das plantas.

Mudam-se vasos e propago do que tenho. Chego ao extremo de me lembrar que em determinado jardim público, numa rua perto, existe uma Ficus elastica (borracheira), e não tendo uma há que surripiar umas estacas e propagar. Arranja-se mais uma silvestre Veronica verna (verónica ou spring speedwell) só para ver como se dá no interior, uma Aquilegia vulgaris (aquilégia, colombina ou erva-pombinha, na foto) e um Pelargonium hortorum (gerânio, sardinheira).

Entregues ao deus dará a fazer os possíveis, na verdade não exigem muito, sobrevivem, e eu negligente nada lhes dava. Já vão retribuindo o novo zelo. Uma aquilégia porque o dia do cravo  é isso, qualquer possibilidade.

O Esplendor de Portugal

Abril 24, 2020

António Lobo Antunes é definitivamente um dos meus escritores favoritos, para mim um nome maior da literatura contemporânea e "O Esplendor de Portugal" era o único livro que me faltava ler da sua obra editada. Não irei estender-me numa opinião minuciosa uma vez que para futuro pretendo reler a obra completa e elabora-lo da forma detalhada. Deixo apenas uma breve impressão de um livro que não destoa do resto da obra do António, fenomenal.

Carlos não vê os seus irmãos, Rui (Conhecimento do Inferno, Explicação dos Pássaros, Que Farei Quando tudo Arde?) e Clarisse, há 15 anos e decide que neste Natal, 1995, irá reunir-se à mesa com eles. Este convite de Natal é o carburador destas vidas que assim encontram-se com um passado que não morre. Rui o irmão doente, Clarisse a insatisfeita, numa busca incessante por amor em homens vários, e Carlos que afinal pode mudar, e passado tanto tempo querer voltar a ver os irmãos. Cada parte do livro é narrada sucessivamente por um dos irmãos, sendo estes capítulos intercalados com os de Isilda, a mãe. À medida que os capítulos dos irmãos avançam e mantém-se fixos a 24 de Dezembro de 1995 os capítulos de Isilda surgem a 24 de Julho de 1978 e irão galgar o tempo ao encontro do presente.

É o título mais irónico do António, o "esplendor" é tido sempre às custas do uso e abuso de quem é mais vulnerável, os jogos de poder do país estabelecem-se por uma sede inata de brilho e ascensão que não olha a fins. As vítimas, a existirem, as gerações que herdam este Portugal, fruto do regime e colonialismo. Filhos da mentira.

não acredites na estima e no respeito sobretudo quando se assemelham a estima e a respeito

Claro que muito mais há a falar do livro, que se estende na obra para outros livros do escritor, mas isso fica para um regresso à sua leitura. D' "O Esplendor de Portugal" a reter é essa grandeza que achámos ter, pela vastidão de terra e riqueza, a existência através do mais fraco. Dinheiro. Poder. A erguer-se de novo um esplendor que seja por ideais legítimos. Vida. Amor.

no regresso dos funerais, perguntava a ninguém o que vale a vida aqui expliquem-me o que vale a vida aqui, e julgo que morreu sem o saber, no girassol

Agarra o Dia, diz o Saul Bellow

Abril 23, 2020

Tenho andado preguiçoso (eu disse-o no footer não disse?), mas "Seize the day" do Saul Bellow é digno de nota, e a minha estreia com o escritor merecia umas breves palavras. O Hugo anda a ler o "Herzog" que lhe ofereci, e em conversa falou deste livro, a respeito de uma crítica positiva de alguém que não me recordo quem, e aqui estou.  É justo que se diga de Bellow um bom escritor e no fim agarremos nós o dia. 

You can spend the entire second half of your life recovering from the mistakes of the first half.

Esta novela vai focar-se na vida Tommy, um jovem que desiste da sua formação académica para seguir o sonho de ser actor. Derrotado do sonho e conformado com a vida, Tommy acaba por se tornar vendedor, casa-se e tem dois filhos. A vida correria bem não fosse Tommy ficar desempregado por se despedir, separado da mulher que lhe recusa o divórcio e vive às suas custas, e o seu  pai, que possuindo algum capital, recusa-se na ajuda. Tommy, ou sempre Wilhelm Adler para o seu pai, desesperado e só, acaba por cair num esquema que se adivinha fraudulento. Ao longo de um dia teremos assim acesso à sua vida e idiossincrasias.

Ao lermos este quarto trabalho de Bellow de imediato é fácil rotularmos Tommy  de falhado, só mais um preguiçoso, alguém que espera que a vida se resolva por si, já que ele limita-se a problematizá-la. Contudo, podendo ser estes juízos certeiros, não há como negar que nem todos nascemos para este jogo rígido em que se alicerça a sociedade, e assim a vida de Tommy, escrita na década de 50 do século passado,  mantém-se fresca como o orvalho da manhã. Condenado a repetir-se nas derrotas, desamparado, Wilhelm agarra o dia num processo de revisitação do passado, terminando esta purga com a confrontação da morte, e, chorando-a, constata o leitor que num mundo moderno mais facilmente chora um estranho por um desconhecido.

Bringing people into the here-and-now. The real universe. That's the present moment. The past is no good to us. The future is full of anxiety. Only the present is real-the here-and-now. Seize the day.

Saul Bellow entrega-nos o peso do ser, Wilhelm muda o seu nome para Tommy, a pessoa que sempre sonhou ser, uma espécie de Gatsby que não consegue nunca reverter o seu passado, seja pelo pai que o nega enquanto Tommy ou pela impossibilidade de conseguir construir império. Diria que "Seize the Day" vai além do mito americano, toca no mito da prosperidade moderna, no que assenta e implica. Lembrando obras como "A Morte de Ivan Illitch" ou "O Estrangeiro",  trata uma reflexão necessária e complexa, existencialista e bem humorada, sobre os obstáculos que devem ser ultrapassados e a factura a pagar por querermos tão simplesmente o luxo de ser num mundo moderno. Se pelo menos fosse fácil.

Facts always are sensational. 

Quem vos escreve:

Moço que diz do sonhar ainda querer, gosta de plantas. Acha que tudo na sua vida chega tardiamente, mas chega. Em tempos já foi geek, hoje em dia acha que isso já não diz nada sobre si. Gosta de literatura, leitor assíduo e pontual, vai fotagrafando, até o que lê, sempre com opinião. Não se orgulha de nada e acha que o seu gosto é o melhor, porque é dele.

Preguiçoso, contudo nunca o assumirá pois sobrepõe o dever e responsabilidade, preterindo a mãe de todos os vícios. Adepto de correr, calistenia e já com idade para saber que nada desta vida, de tudo o que vale a pena, nos chega de forma óbvia ou fácil. Nada desta vida, porque não somos daqui.

Não somos daqui

"Não somos daqui" é um blog literal, bem, talvez não tão literal assim. Pela jornada que se inicia haverá tempo para o perceber. Tempo também para se definir terá este blog recém-nascido. Sabendo que não sou daqui, e que ele também não, não de facto, não somos daqui. Quem o disse? Provavelmente já muitos, mas a quem o tomei? Talvez ainda o diga ou haverá alguém que sabendo-o, porque não é daqui, o dirá por mim. Além da subscrição por email pode ser seguido por RSS .

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