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Não Somos Daqui

Relação do que se Faz ou Sucede #2

Junho 18, 2020

Mais de um mês ausente e eis que me lembro de que agora, e ainda, tenho um blog. Ando a portar-me mal. Neste período li "Moby Dick", "Sinais de Fogo" do Jorde de Sena e já vou lançado na segunda metade de "Guerra e Paz". Nada falei destas leituras e gostava, principalmente de Moby, um livro que acho tremendo e me levou a querer ler tudo do Mellville. Entretanto já comprei a short fiction completa. Além de naturalmente me esquecer do blog, o regresso ao laboratório, orientar um estágio e escrever um artigo de revisão sobre glutamina sintetase ajudam a que das poucas vezes que me lembrava de aqui vir acabar por esquecê-lo. Com o isolamento social retomei a minha rotina de treinos que tenho tentado manter e entre tudo o que tenho em mãos cá estou. A ver se reservo tempo para ainda escrever coisas que gostava, tempo suficiente para que nada do que possa dizer seja precipitado ou menos elaborado do que pretendo. Deixo isso para a relação do que se sucede.

O Esplendor de Portugal

Abril 24, 2020

António Lobo Antunes é definitivamente um dos meus escritores favoritos, para mim um nome maior da literatura contemporânea e "O Esplendor de Portugal" era o único livro que me faltava ler da sua obra editada. Não irei estender-me numa opinião minuciosa uma vez que para futuro pretendo reler a obra completa e elabora-lo da forma detalhada. Deixo apenas uma breve impressão de um livro que não destoa do resto da obra do António, fenomenal.

Carlos não vê os seus irmãos, Rui (Conhecimento do Inferno, Explicação dos Pássaros, Que Farei Quando tudo Arde?) e Clarisse, há 15 anos e decide que neste Natal, 1995, irá reunir-se à mesa com eles. Este convite de Natal é o carburador destas vidas que assim encontram-se com um passado que não morre. Rui o irmão doente, Clarisse a insatisfeita, numa busca incessante por amor em homens vários, e Carlos que afinal pode mudar, e passado tanto tempo querer voltar a ver os irmãos. Cada parte do livro é narrada sucessivamente por um dos irmãos, sendo estes capítulos intercalados com os de Isilda, a mãe. À medida que os capítulos dos irmãos avançam e mantém-se fixos a 24 de Dezembro de 1995 os capítulos de Isilda surgem a 24 de Julho de 1978 e irão galgar o tempo ao encontro do presente.

É o título mais irónico do António, o "esplendor" é tido sempre às custas do uso e abuso de quem é mais vulnerável, os jogos de poder do país estabelecem-se por uma sede inata de brilho e ascensão que não olha a fins. As vítimas, a existirem, as gerações que herdam este Portugal, fruto do regime e colonialismo. Filhos da mentira.

não acredites na estima e no respeito sobretudo quando se assemelham a estima e a respeito

Claro que muito mais há a falar do livro, que se estende na obra para outros livros do escritor, mas isso fica para um regresso à sua leitura. D' "O Esplendor de Portugal" a reter é essa grandeza que achámos ter, pela vastidão de terra e riqueza, a existência através do mais fraco. Dinheiro. Poder. A erguer-se de novo um esplendor que seja por ideais legítimos. Vida. Amor.

no regresso dos funerais, perguntava a ninguém o que vale a vida aqui expliquem-me o que vale a vida aqui, e julgo que morreu sem o saber, no girassol

Agarra o Dia, diz o Saul Bellow

Abril 23, 2020

Tenho andado preguiçoso (eu disse-o no footer não disse?), mas "Seize the day" do Saul Bellow é digno de nota, e a minha estreia com o escritor merecia umas breves palavras. O Hugo anda a ler o "Herzog" que lhe ofereci, e em conversa falou deste livro, a respeito de uma crítica positiva de alguém que não me recordo quem, e aqui estou.  É justo que se diga de Bellow um bom escritor e no fim agarremos nós o dia. 

You can spend the entire second half of your life recovering from the mistakes of the first half.

Esta novela vai focar-se na vida Tommy, um jovem que desiste da sua formação académica para seguir o sonho de ser actor. Derrotado do sonho e conformado com a vida, Tommy acaba por se tornar vendedor, casa-se e tem dois filhos. A vida correria bem não fosse Tommy ficar desempregado por se despedir, separado da mulher que lhe recusa o divórcio e vive às suas custas, e o seu  pai, que possuindo algum capital, recusa-se na ajuda. Tommy, ou sempre Wilhelm Adler para o seu pai, desesperado e só, acaba por cair num esquema que se adivinha fraudulento. Ao longo de um dia teremos assim acesso à sua vida e idiossincrasias.

Ao lermos este quarto trabalho de Bellow de imediato é fácil rotularmos Tommy  de falhado, só mais um preguiçoso, alguém que espera que a vida se resolva por si, já que ele limita-se a problematizá-la. Contudo, podendo ser estes juízos certeiros, não há como negar que nem todos nascemos para este jogo rígido em que se alicerça a sociedade, e assim a vida de Tommy, escrita na década de 50 do século passado,  mantém-se fresca como o orvalho da manhã. Condenado a repetir-se nas derrotas, desamparado, Wilhelm agarra o dia num processo de revisitação do passado, terminando esta purga com a confrontação da morte, e, chorando-a, constata o leitor que num mundo moderno mais facilmente chora um estranho por um desconhecido.

Bringing people into the here-and-now. The real universe. That's the present moment. The past is no good to us. The future is full of anxiety. Only the present is real-the here-and-now. Seize the day.

Saul Bellow entrega-nos o peso do ser, Wilhelm muda o seu nome para Tommy, a pessoa que sempre sonhou ser, uma espécie de Gatsby que não consegue nunca reverter o seu passado, seja pelo pai que o nega enquanto Tommy ou pela impossibilidade de conseguir construir império. Diria que "Seize the Day" vai além do mito americano, toca no mito da prosperidade moderna, no que assenta e implica. Lembrando obras como "A Morte de Ivan Illitch" ou "O Estrangeiro",  trata uma reflexão necessária e complexa, existencialista e bem humorada, sobre os obstáculos que devem ser ultrapassados e a factura a pagar por querermos tão simplesmente o luxo de ser num mundo moderno. Se pelo menos fosse fácil.

Facts always are sensational. 

Da Ilíada de Homero

Abril 06, 2020

Homero permanece até hoje um mistério, não se sabendo se terá sido de facto um poeta histórico ou mera construção. Sabe-se contudo (ainda que com muitas incertezas) que pela mão desse homem que viveu oito séculos antes de Cristo na Jónia (actual região da Turquia) terão sido escritas a "Odisseia" e "Ilíada". Esta última foi a primeira a ser escrita, sendo a acção da sua narrativa também precedente à viagem do retorno de Odisseu. Assim fazia-me todo o sentido abordar Homero, nos seus dois únicos poemas épicos a que temos acesso, pelo princípio.

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A "Ilíada" é a obra ocidental mais extensa e antiga, com relevância literária e histórica, de que temos registo. A sua narrativa estabelece-se durante o décimo ano da guerra de Troia, num espaço temporal de 51 dias. Esta guerra inicia-se dez anos antes da narrativa, por conta de Páris, um dos filhos de Príamo, rei de Troia, que decide raptar Helena (à esquerda numa pintura de Evelyn de Morgan, 1898), mulher de Menelau, o então rei de Esparta. Páris foge com Helena para Troia e os aqueus (gregos) iniciam assim uma busca incessante para devolver Helena a Menelau, instalando-se uma longa guerra. A combater por Troia obviamente Páris com o seu irmão Heitor e o pai de ambos, Príamo. Eneias no campo militar também é personagem de relevo e que mais tarde viria a ser ojecto de trabalho por parte de Virgílio na "Eneida". Da hoste dos aqueus surge Aquiles, Agaménon, Pátroclo, Odisseu (Ulisses) e o próprio Menelau, entre outras personagens de relevo. Além do plano terreno da guerra, os deuses no Olimpo focam as suas atenções nas movimentações terrenas, tomando partidos e debelando-se também entre si sobre quem deve sair vencedor.

Aquiles surge de início para pouco depois se tornar ausente, sabemos onde se encontra, vai sendo lembrado e desejado mas é dado logo ao leitor como um ser imperfeito. O herói da Ilíada na minha óptica é o herói que além do ideal é dado em toda a sua miséria. Homem híbrido, filho de uma deusa com um homem, Aquiles, como que capaz de reunir em si o todo existencial, para mim a figura total da "Ilíada". Sendo conhecida a ira de Aquiles também se deveria constatar a indiferença de Aquiles, tão ou mais reveladora do carácter e nenhuma outra personagem ao longo do livro consegue ter a força desta. Só a própria ideia do herói assombra os homens e move as hostes. Por fim Aquiles, depois de uma longa e propositada ausência que gera em nós leitores expectativa tremenda, surge em esplendor para o bem e para o mal. Esta visão dicotómica do herói também a vi aplicada a Heitor um suposto vilão (se assim o pode ser), sendo estas marcas narrativas extremamente inteligentes e que não estão na posterior base da visão do pleno herói e do perfeito vilão. Actualmente pede-se que as personagens sejam simplesmente humanas, com virtudes e defeitos, com dúvidas e sonhos. Na "Ilíada"  já há disto indícios assentes, de que nada é definitivo e definidor nas personagens, peças de barro moldadas, mutáveis. Os deuses capazes de atrocidades que resvalam o terreno, os homens capazes do divino na Terra, e Aquiles a ponte entre planos, o todo.

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E isto leva-me à questão da perspectiva na "Ilíada", que rasga a história e coloca-nos na dúvida em relação a que partido tomar. A legitimidade dos actos que vão surgindo com as atrocidades da guerra, o sangue pelo sangue e a ausência de nisto ocorrer um sentido existencial superior. Por fim Helena, essa mulher geradora de conflito que na verdade nem sabemos se quer realmente voltar com os aqueus, capaz de afeição profunda para com Heitor. A fragmentação narrativa está também presente, as malhas são lançadas e muitas vezes ficam à deriva na composição de um quadro maior, artifícios técnicos que ainda hoje obras pós-modernistas exploram de forma mais exaustiva e que podendo ser meramente defeitos, elevam-se a virtudes. A qualidade imagética da "Ilíada" é impressionante pelo que logo de início pensei estou a ver um filme.

Sabe-se que tudo o que Homero nos dá provavelmente já faria parte do folclore e da tradição oral, contudo é inegável a noção de ofício do homem, o trabalhar não só a história mas a palavra e recursos para entrega da informação. Se pensarmos que não terá vivido mais de 30 anos, conclui-se facilmente que a vida era então outra e os génios poderiam brotar mais cedo. A salientar que li a belíssima tradução do Frederico Lourenço (que prefere a  "Ilíada" à "Odisseia") e que em determinados momentos é difícil nos contermos com a qualidade poética do que é apresentado, refiro-me não só ao tradutor mas ao trabalho do escritor, ainda que percamos o ritmo e sonoridades originais (e que andei a ouvir), há momentos que nos despem. Quis escrever esta opinião sem estar contaminado pela "Odisseia", ou arriscar-me em comparações que para mim serão sempre injustas  poisnão sei ainda qual preferirei, não seria justo diminuir uma obra que para mim não tem tamanho e à qual irei regressar.

A Neve Caindo Sobre os Cedros

Abril 02, 2020

David Guterson estreou-se em 1994 com um livro laborioso onde os temas além de variados envolveram um trabalho de casa inteligente para que, no todo, funcionasse. "A Neve Caindo Sobre os Cedros" é uma obra americana que aprendeu com a sua história literária, posto isto não tinha como não gostar.

O livro possui um enredo massivo que dividiria em três focos principais, que se entrecruzam, e dois deles existem para engrandecer o espaço central de todo o livro, o julgamento onde um pescador nativo americano, descendente de japoneses, é acusado do homicídio de um cidadão americano caucasiano. O segundo trilho narrativo a ser seguido trata o passado das personagens que estão presentes em tribunal, um passado longínquo ainda vivo e outro recente que rodeia o mistério da morte. Por fim, ocorre a exposição da questão histórica relacionada com a segunda guerra mundial, focando particularmente a batalha de Tarawa. Que implicações gerou a guerra na vida das personagens, tanto americanas e japonesas, enquanto amostra da sociedade.

Algumas influências de Guterson são claras nas escolhas dos elementos. Um livro que tem como tema central um julgamento remete-nos de imediato para Harper Lee com a sua cotovia. Uma das personagens principais chamar-se Ishmael é de forma óbvia (e assumida pelo escritor no livro) um piscar de olho ao "Moby Dick" de Melville, sendo também o mar e a pesca importantes no romance. Uma certa mística associada à luz, uma busca por um amor ideal que ficou no passado, lembra-nos "O Grande Gatsby" de Fitzgerald e a latente importância da terra que Steinbeck já enquadrava nas suas vinhas. Mais influências haverão em alguém que se lê ter sido um bom aprendiz.

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A história traz uma narrativa lenta, por descritiva, com uma contenção magistral e para a qual grande parte não terá disponibilidade. Quem estiver de braços abertos para a narrativa poderá deleitar-se com uma experiência sinestésica ao nível das cores. Os tempos narrativos alternam-se, imiscuindo-se num puzzle sólido, mas que por vezes deixa o limite das peças bem evidente. Não sendo uma narrativa fragmentária terá momentos de passagem abrupta, contudo sem comprometer todos os elogios que lhe posso tecer, talvez a maior fragilidade do livro. 

Racismo, amor, fé, dever e honra são temas que o escritor explora de forma exemplar sem cair no melodrama, sendo o grande tema central provavelmente a família. Para mim Guterson é um exemplo de que existem ainda escritores com boas histórias para contar e de forma competente. Tendo em conta que leio cada vez menos contemporâneos por desilusões várias, "A Neve Caindo Sobre os Cedros" é um primeiro livro que acaba por me roubar o melhor dos elogios, vale a pena ser lido até à ultima palavra.

P.S. - A adaptação cinematográfica de 1999 por Scott Hicks vale igualmente a pena. 

Quem vos escreve:

Moço que diz do sonhar ainda querer, gosta de plantas. Acha que tudo na sua vida chega tardiamente, mas chega. Em tempos já foi geek, hoje em dia acha que isso já não diz nada sobre si. Gosta de literatura, leitor assíduo e pontual, vai fotagrafando, até o que lê, sempre com opinião. Não se orgulha de nada e acha que o seu gosto é o melhor, porque é dele.

Preguiçoso, contudo nunca o assumirá pois sobrepõe o dever e responsabilidade, preterindo a mãe de todos os vícios. Adepto de correr, calistenia e já com idade para saber que nada desta vida, de tudo o que vale a pena, nos chega de forma óbvia ou fácil. Nada desta vida, porque não somos daqui.

Não somos daqui

"Não somos daqui" é um blog literal, bem, talvez não tão literal assim. Pela jornada que se inicia haverá tempo para o perceber. Tempo também para se definir terá este blog recém-nascido. Sabendo que não sou daqui, e que ele também não, não de facto, não somos daqui. Quem o disse? Provavelmente já muitos, mas a quem o tomei? Talvez ainda o diga ou haverá alguém que sabendo-o, porque não é daqui, o dirá por mim. Além da subscrição por email pode ser seguido por RSS .

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